INTELIGÊNCIA DE MERCADO: Os minerais preciosos na Amazônia Ocidental
Garimpeiros, metalúrgicos, ourives e alquimistas: Como a Amazônia Ocidental trabalha os minerais preciosos.
Dentre as escolhas para preservação do bioma na Amazônia Ocidental, a dependência em relação à Zona Franca de Manaus, o Amazonas é intensivo em importações e escasso em exportações. Não segue o padrão da economia brasileira de exportação de commodities. Ultimamente tem havido alguma exportação de motocicletas, lâminas e canetas, e concentrados para bebidas. O sonho do Eldorado, de enriquecer na Amazônia pela extração de minerais, mal se cumpre pela ainda relevante produção de estanho na mina de Pitinga, no município de Presidente Figueiredo.
Contudo, do pouco que é exportado, os dados apontam para crescente exportação de minerais ou pedras preciosas, identificados pela classe NCM 71. Do total de quase US$ 26 bilhões exportados pelo Amazonas desde 1997, aproximadamente 2,5% foram de metais preciosos. Mas a relevância tem crescido em evolução tal como o gráfico abaixo. Hoje são 15% das exportações do estado.
Gráfico 1: Exportações do Amazonas, totais e de minerais raros. Valores FOB em US$ bilhões. Fonte: ComexStat
Provavelmente pela estrutura logística de recolhimento e distribuição a partir do aeroporto de Manaus (TECA), sempre tem havido exportação de lingotes de ouro. A Alemanha é sempre o principal destino, para onde, desde 2020, foram embarcados US$ 438 milhões em lingotes de ouro, com clara tendência de crescimento.
Gráfico 2: Exportações do Amazonas, lingotes de ouro. Valores FOB em US$ milhões. Fonte: ComexStat
Na verdade, o cenário de operações com minerais raros ou preciosos na Amazônia Ocidental se perfaz, surpreendentemente, pelo CONSUMO.
O polo relojoeiro costuma ser o vetor de consumo de minerais preciosos mais imediatamente reconhecido no ambiente do Polo Industrial de Manaus – PIM. Uma das primeiras indústrias foi neste setor, a Beta. Hoje, conta com 17 fábricas com faturamento anual em cerca de R$ 1,3 bilhões e cerca de 13 insumos ligados a metais preciosos.
Em paralelo, Manaus recebeu também investimentos de uma das empresas de maior tradição no trato com metais preciosos e materiais avançados. A belga hoje nomeada Umicore, proprietária da fábrica Coimpa, em Manaus desde 1973, tem tradição que remonta à extração de minérios no antigo Congo Belga de fins do século XIX e início do XX. Ao longo do século XX reposicionou-se nos pontos mais avançados da agregação de valor nos minérios, e hoje é uma gigante global fornecedora de materiais de aplicação industrial, reciclagem e energia. Seus números apontam para faturamento de 4 bilhões de euros em cerca de trinta países, € 300 milhões em gastos com P&D, capex de € 800 milhões, € 400 milhões de lucro e 12 mil funcionários. No Brasil, além da Coimpa em Manaus, a Umicore tem subsidiárias em Guarulhos e Americana.
A Umicore trouxe a Manaus as aplicações avançadas de materiais industriais, bem além da joalheria. É fácil recordar da década de 1990 e 2000 o imenso volume de CDs e DVDs produzidos na Zona Franca de Manaus, numa cadeia em que se destacavam a Videolar e a Sony. Cada CD ou DVD costumava compor sua massa de 15 a 20 gramas por 0,5 mg de ouro e 2 mg de prata.
Atualmente, com a aplicação disseminada da eletrônica, tais materiais são demandados para compor inúmeros produtos, produzidos ou não na Zona Franca de Manaus. São necessários para prover condutividade elétrica e proteger os componentes da corrosão. Exemplos de direcionadores das demandas são os computadores, notebooks, monitores, telefones celulares, televisores, painéis de motocicletas, embarcações, automóveis e demais eletrodomésticos, além de todo o horizonte de máquinas industriais.
Nesse ambiente se misturam com os minerais raros os insumos classificados como químicos. Isso presta consequências aos modos como os dados da economia local são organizados. Porém, têm como raiz o mesmo vetor de demanda acima descrito. Entre os insumos químicos há o nitrogênio, o cianeto de potássio, óxidos de estanho e cádmio, trióxidos de molibdênio, bismuto e tungstênio, sulfatos de zinco, tálio e índio. Todos necessário nos processos para cristalizar ou produzir ligas, fios, ácidos, ânodos e soldas à base dos minerais raros, como prata, ouro, ródio e platina.
Em que pese muitos desses itens serem adquiridos de outros estados brasileiros, por vezes sob obrigação de controle dos PPBs, é possível perceber a relevância de ambas os insumos pelo acumulado das importações. Desde 1997 o total importado de insumos químicos é de US$ 208 milhões, é de US$ 9,8 bilhões. Os gráficos apresentaram as tendências de ambas as classes.
Abaixo o quadro apresenta os itens produzidos no Polo Industrial de Manaus com elevada intensidade no uso de minerais raros ou preciosos. Os destaques em negrito são os produtos, nomeados pela classificação Suframa, e as linhas abaixo são os insumos pela Nomenclatura Comum do Mercosul – NCM, adaptada.
Daqui se percebe os extremos e interfaces entre os usos de metais preciosos para fins de joalheria ourivesaria e os para fins industriais da metalúrgica avançada e eletrônica. À parte a relojoaria, há 13 produtos, e centenas de insumos diferentes. Entre as empresas de destaque, ao lado da Coimpa, há a Conipa, Just In Time e, mais recentemente, a Get Stones.
Da parte de manufatura avançada geral e eletrônica, há os produtos individuais, como a prata, o paládio e a platina em ligas, varetas, ânodos, cristais, pós e etc. O cloreto de ródio, e o aurocianeto de potássio. Há os produtos químicos gerais para tratamento de galvanoplastia e outros tratamentos de superfícies, que combinam prata com outros compostos inorgânicos e orgânicos. E os artefatos de joalheria e ourivesaria propriamente ditos, onde cabem como insumos, ao lado dos metais de maior tradição, como ouro, prata e diamante, todas as pedras preciosas e pérolas, como rubis, esmeraldas e opalas. Os itens de joalharia e bijuterias são identificados, como fechos, braceletes, elos etc.
A presença de destaque no ambiente de joalheria é a Vivara S.A., empresa paulistana fundada em 1962 por judeus romenos egressos da Segunda Guerra Mundial, com tradição familiar de séculos de trabalhos em joalheria e ourivesaria. Em 1992 inaugurou em Manaus a primeira fábrica de relógios, a Conipa, onde formou base industrial para seus diversos itens de luxo que lhe permitiram expandir o varejo para, atualmente, 230 pontos de venda no Brasil e um recém-inaugurado no Panamá.
Na verdade, tanto a base industrial, por meio da subsidiária Conipa, quanto a base comercial, pela subsidiária Tellerina, são sediadas em Manaus, onde acumulam os incentivos da Zona Franca de Manaus e da Sudam. Em São Paulo prossegue apenas a holding controladora.
A Vivara S.A. está em vias de registrar, em 2024, faturamento de cerca de R$ 3,5 bilhões, e lucro de R$ 400 milhões. Juntas, Conipa e Tellerina somam cerca de R$ 2,3 bilhões em investimentos diretos da Vivara. Em ativos, a Conipa registra R$ 2,8 bi e a Tellerina, R$ 3,9 bi.
A expansão comercial da Vivara, por meio da Tellerina, envolve três principais linhas de negócios. As lojas Vivara são de maior foco em joalheria clássica. As lojas Life são mais diversificadas entre os acessórios e itens gerais de luxo, como relógios e óculos. São as que têm registrado maior crescimento de receita, de 50% na base anual. Há também os quiosques, que buscam maximizar as receitas por metro quadrado. Obviamente, todos os produtos são disponíveis pelo meio digital.
O projeto mais recente, a Get Stone, também iniciou em São Paulo. Desde 2010 propõe ao mercado um modelo B2B, em que vende peças para outras ourivesarias ou joalherias, ou recebe deles projetos de fabricação ou restauração.
A seguir um diagrama de Venn resume os setores com empresas e produtos relacionados a minerais raros ou preciosos. Os três setores, Químico, Metalúrgico e Relógios, são muito diversificados, com centenas de produtos e empresas não imediatamente relacionados aos metais preciosos, mas as empresas exemplificadas mostram como o trato com os minerais preciosos é um aspecto não imediatamente destacado nas classificações econômicas.
OPORTUNIDADE: A ECONOMIA CIRCULAR
Se os minerais raros ou preciosos são o ponto em comum entre a joalheria e a indústria de alta tecnologia, uma oportunidade, ou quase obrigação, do Polo Industrial de Manaus é formar um cluster de economia circular para recolhimento de bens duráveis usados em todo o Brasil ou América Latina, para imediato reuso dos insumos nos processos produtivos do Polo Industrial de Manaus.
Desde 2018, somente o PIM produziu aproximadamente 40 milhões CDs, DVD’s e Blu-Rays; 4,5 milhões de laptops, 600 mil desktops, 14 milhões de monitores, 8,4 milhões de tablets, 100 milhões de telefones celulares, 82 milhões de televisores LCD e 25 milhões de receptores de sinal digital.
Segundo o ChatGPT, é possível que somente nessa lista estejam disponíveis 6,8 Kg de ródio, 12,5 Kg de Platina, 162 toneladas de Prata e 4,9 toneladas de ouro.
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