​A Amazônia diante do colonialismo tecnológico

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Doutor em Engenharia de Transportes pela UFRJ e professor da Ufam



As desigualdades digitais entre os países são gritantes. Há poucos produtores e bilhões de consumidores. As empresas que lideram este novo capitalismo atuam como um “tecnofeudalismo”, termo cunhado por Yanis Varoufakis para explicar um ambiente onde bilionários se protegem contra a regulação ao mesmo tempo em que, como grandes barões do passado, compram startups para evitar novos concorrentes que possam emergir em qualquer lugar. Neste contexto, vê-se seus maiores exemplos nas “Mag 7”: Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla.


O excesso de informações mediado por redes sociais e por bolhas de informação dá a impressão para as pessoas de um conhecimento amplo, ao passo que o que há são informações que sofrem curadoria cuidadosa e são apresentadas em vinculações de afetos ou ódios, para mobilização frente a medidas que podem ser contrárias ao seu próprio interesse, fazendo até com que o subemprego seja comparável a uma atividade empresarial rentável.


Políticas mercantilistas (século XV ao XVIII) levaram a uma expansão colonial, com acumulação de metais preciosos, protecionismo e imposição de regras pela força militar. O poder de agora é transnacional, com fronteiras menos visíveis e a desigualdade baseada no controle digital e econômico. O colonialismo é tecnológico, a competição está nas plataformas, com uma enorme opacidade algorítmica e pouca regulagem econômica, graças ao neoliberalismo, temperada por uma abundância de capital público e privado.


A falta de consciência da ignorância frente ao cenário pode levar a uma atuação de busca de um passado colonial. O desafio para as regiões e pessoas que não possuam domínio desta linguagem tecnológica para enfrentar e ganhar a vida no neoliberalismo, passa a observar a chance de produção de commodities, ou seja, de ter uma vida “neocolonial” como um alvo promissor. O problema é que este modo de viver é subalterno, com tendência a escravização, inicialmente voluntária, e com uma troca desigual de riquezas, tal qual falávamos no passado “espelhos por ouro”.


Hoje trocamos soja por blusinhas ou biotecnologia baseada em conhecimentos tradicionais por celulares. O mundo segue desafiante, como sempre foi. O problema é o posicionamento adequado para cada momento. As oportunidades não são óbvias, nem fáceis. Afinal, se fossem, todos seriam ricos e com boas condições de vida. Achar que o outro é “tolo” ou “doido” não nos fará superar os desafios de uma mudança de mundo. Precisamos buscar a inteligência por trás de cada movimento, afinal ninguém é líder por acaso e a união faz a força.


A biotecnologia, impulsionada por capital local e plataformas tecnológicas protegidas por ecossistemas de capital privado regional, podem oferecer uma oportunidade única para a Amazônia e para o Brasil. Missões nessa nova indústria são valiosas, desde que possamos liderar a construção deste cenário. Entretanto, existem e existirão forças que resistirão, para nos manter como uma eterna colônia.