O mindset da competitividade estrutural
André Ricardo Costa
Doutor em Administração pela USP e Professor da Ufam
Virada de ano é tempo das publicações dos rankings disso e daquilo. Nos últimos dias dois foram publicados. Um feito pela consultoria Urban Systems, divulgado pela Revista Exame, com as cidades mais competitivas do país nos principais setores econômicos. Outro, do INPI, classificou os estados pelo desempenho em inovação, o Índice Brasileiro de Inovação e Desenvolvimento - IBID. Nosso desempenho em ambos demanda alguma reflexão.
Quanto às cidades, o desempenho de Manaus no ranking da Urban Systems foi ambíguo, com forte melhora no desempenho da Indústria contrastando com quedas nas demais dimensões, Comércio, Serviços, Imobiliário, Educação e Agropecuária. No ranking de inovação, contudo, nosso desempenho foi inequivocadamente desfavorável, com o Amazonas localizando-se na vigésima posição, caindo três na comparação decenal, e piorando em 8,5% na medida IBID.
Ambos os rankings são divulgados em publicações ricas em conteúdo, explicando os indicadores que embasaram a montagem dos índices. No ranking de cidades, por exemplo, a melhora na performance de Manaus foi impulsionada pelo crescimento do emprego industrial, em crescimento constante desde junho de 2020. Na frente de Manaus estão Joinville-SC, Caxias do Sul-RS, Nova Serrana-MG e Maracanaú-CE.
O índice de inovação do INPI é mais abrangente. Inclui ambiente de negócios, infraestrutura, capital humano, economia criativa e conhecimento e tecnologia. Em quase todos esses fatores o Amazonas já era ruim ou piorou muito. O único em que melhoramos foi Capital Humano, refletindo o forte aumento na oferta de vagas no Ensino Superior e melhora no Ideb. As posições em infraestrutura (23º) e economia criativa (24º) são especialmente preocupantes. Os melhores são São Paulo, Santa Catarina e Paraná. Desde a última edição fomos ultrapassados por Piauí, Tocantins e Paraíba.
Usando os dois rankings para uma interpretação conjunta, percebe-se que, despeito as dificuldades, a indústria amazonense tem feito excelente trabalho. Mas ainda que tivesse registrado a primeira posição caberia pensar o que fazer para alargar a distância ao segundo colocado. Estando em quinto, cabe questionar o que pode ser feito para, no mínimo, ultrapassar Maracanaú.
Rápida busca na internet esclarece algumas vantagens de Maracanaú. A cidade comemora a expansão de um distrito industrial de seis décadas, onde vários fatores estruturantes têm sido oferecidos a quem quer lá se instalar, como farta oferta de saneamento e energia. A proximidade com insumos como alimentícios e têxteis, e a qualidade da mão-de-obra pelo propalado sucesso cearense na educação completam o cenário auspicioso de Maracanaú.
Para ultrapassá-la, precisamos aplicar definitivamente a forma de pensar adequada ao alcance da competitividade no nosso ambiente de negócios. Desde 1992 a OCDE apresenta o conceito de “competitividade estrutural”, que reúne todos os elementos e atitudes de que precisamos. Envolve integração de ações a níveis meta, macro, meso e micro, a serem pensadas por todos os líderes da sociedade, os atuais e os em potencial, como os atuais educandos.
Se um dia o alcance da competitividade estrutural se tornar objetivo para os líderes amazonenses, será porque conseguiram se livrar de algumas armadilhas, como a de discutir somente a pauta do dia, esperar ser demandado e olhar somente para as operações imediatas, a velha miopia que impede de enxergar a longo prazo, de diariamente desistir de lutar pela resolução de gargalos, integração dos atores, otimização das cadeias produtivas e aproveitamento máximo dos fatores de produção.Créditos imagem: Unsplash_Adrienguh