Um ano peculiar para a COP vir ao Brasil
André Ricardo Costa
Doutor em Administração pela USP e professor da Ufam
Que seja bem-vinda e comemorada a COP30. Que os belenenses derrotem qualquer ceticismo quanto ao sucesso do evento. Contudo, é inevitável um certo ceticismo em torno da eficácia de suas propostas, a nível global e local. Ainda mais diante dos eventos que tomam de assalto a geopolítica neste ano de 2025.
Não bastasse as loucuras fazerem regra no Oriente Médio e Rússia/Ucrânia, o novo velho líder dos Estados Unidos aparece com a nova de tomar Canadá, Panamá e... Groelândia! Dias após receber as ameaças, o primeiro-ministro da Groelândia, Mute Egede, declarou disposto a conversar com o potencial algoz.
Quem não fica perplexo? Só os felizardos que conseguem não saber das notícias, os que estão anestesiados pelo excesso delas, ou os que as interpretam sob a abordagem do realismo clássico, com raízes de Hobbes (1588-1679) a Hans Morgenthau (1904-1980). Estes são poucos, muito poucos. A reação geral é mesmo de surpresa e indignação.
É assim porque o pensamento público ocidental pendeu para um romantismo liberal-institucionalista, acreditando que organismos multilaterais conteriam o ímpeto individualista das nações e viabilizariam a democracia e autodeterminação como o Fim da História. Seria a derrota da perspectiva realista de que as nações são entes que agem somente pelos próprios interesses.
Mas é compreensível. A queda do Muro de Berlim, a dissolução pacífica da Tchecoslováquia, a união das democracias europeias e a entrada dos asiáticos no mercado global foram convites a olhar para frente, com os problemas sendo solucionados de modo negociado e intergeracional. Daí que a causa ambiental, antes dependente de conservacionistas locais, com a Rio-92 aspirou a status de nova utopia.
Assim, nas últimas décadas percebemos, qual Inocentes do Leblon, o sem-número de conflitos na África, Primavera Árabe, empoderamento russo e o dragão atroz cujo crescimento súbito consumiu em larga escala todos os tipos de recursos do planeta, com os resíduos correspondentes. É verdade que o romantismo sofreu golpes com os grandes eventos de terrorismo, mas se justificou pensando que a nação que reagia atabalhoada era a única guiada somente pelos próprios interesses.
Somente agora a inocência parece estar perdendo os últimos respaldos. Simbólico que a Dinamarca seja a primeira a sofrer. Deu muito de si para a Ucrânia e agora tem pouco para proteger sua Groelândia. Canadá é semelhante.
Assistimos à ressurgência da geopolítica dos acessos, disputados pelos que mais conseguem usufruir dos recursos. Estados Unidos, Rússia e China devem ser os protagonistas das disputas por terras e águas, em torno de fronteiras velhas, como o comércio bioceânico Pacífico-Atlântico, e novas, como o Ártico.
Diante de tudo isso, a COP30 corre risco de ser o último bastião da inocência. De decidir por autocontenções que surtirão efeito zero enquanto não seguidas pelos protagonistas supracitados. Pior: Provável o Brasil não incensar um dos casos mais importantes de proteção ao meio-ambiente: O Polo Industrial de Manaus. Ainda que por externalidade não planejada, os empregos industriais no Amazonas são forte desincentivo ao desmatamento, sendo a maior razão por ainda existir Amazônia.
Fora o PIM, há vários outros exemplos de instituições efetivas para o desenvolvimento sustentável pela perspectiva realista, dispensando a autocontenção romântica. Começa pela regularização fundiária. Em outros exemplo, economia circular, logística capilar e disseminação de técnicas de engenharia genética. Essa é a chance da COP 30.