Benefícios e riscos da diversificação

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André Ricardo Costa

Doutor em Administração pela USP e professor da Ufam

Convém não botar todos os ovos no mesmo cesto, dizia a vovó. A diversificação é uma proteção contra a ignorância, diz Warren Buffet, famoso investidor. Saber até que ponto quem ou cada um tem razão pode ajudar a compreender eventos recentes relevantes para o desenvolvimento do Amazonas, e pensar em nossa vocação.


Somos o estado brasileiro com perfil de PIB mais concentrado. 52% do Valor Bruto de Produção, o VBP, deriva da indústria de transformação. Por isso, qualquer suposição de suplantar a Zona Franca de Manaus precisa assegurar algo no nível dos R$ 200 bilhões de faturamento e 127 mil empregos diretos do PIM, responsáveis pela maior parte dos outros 400 mil empregos formais no Amazonas.


Na origem dos outros 48% de VBP, e de alguns dos 400 mil empregos, há alguns projetos extrativistas, como os hidrocarbonetos de Coari e Silves, e o estanho em Pitinga. As notícias também apontam que a extração de potássio em Autazes acrescentará algo relevante no VBP.


A exploração de estanho em Pitinga, cujos direitos minerários foram recentemente vendidos pelo então proprietário, um grupo peruano, a congênere chinês, ilustra os riscos a que se expõe a economia amazonense ao se distrair de uma atividade econômica consolidada, que é o PIM.


A venda do Pitinga fez pulular reclamações nacionalistas. Contudo, o grupo peruano tinha em mãos uma bomba financeira. O capital imobilizado para operar aquela jazida é de cerca de R$ 900 milhões, e os custos operacionais fixos não são inferiores a R$ 100 milhões. Para sustentar essa estrutura, o grupo peruano havia investido R$ 2,135 bilhões até 2019. Só tem retorno satisfatório com faturamento próximo a R$ 1,3 bilhões, como o registrado em 2022. Mas desde 2011 os preços globais do estanho não colaboram. Após pico US$ 31 mil dólares a tonelada claudicou de US$ 15 mil a US$ 20 mil até março de 2020. De 2021 a 2022 surpreendeu chegando a US$ 45 mil, mas rápido perdeu 62% e voltou a US$ 17 mil.


Em consequência, a operação em Pitinga acumulou prejuízos a montante de R$ 2,46 bilhões, demandando do então proprietário um aporte de R$ 123 milhões para garantir o cumprimento das obrigações operacionais. Somente em 2022 reverteram o passivo a descoberto. E novamente se aproximaram do vermelho em 2023.


Fica a expectativa de como os chineses lidarão com esta volatilidade. Bem como se os canadenses, e seus sócios amazonenses, experimentarão algo semelhante com o potássio de Autazes. Tudo indica que o negócio de Autazes vai lucrar com a proximidade ao agronegócio do Centro-Oeste brasileiro. Talvez os chineses estejam comprando o estanho de Pitinga para ter ganhos com a verticalização, levando o estanho mais imediatamente como insumo para a indústria chinesa, em componentes e embalagens.


Se for essa a fonte de valor de Pitinga, para o Amazonas só haveria ganho relevante se providenciar as devidas conexões para o PIM, fazendo aqui a metalurgia do estanho. Esta é a nossa vocação. A questão não está numa escolha dogmática entre concentração ou diversificação, a vovó típica ou o vovô Buffet, mas nos fundamentos. Se o PIM é o que dá certo, as demais vertentes precisam ser otimizadas para melhor servi-lo, fazendo-o aumentar o faturamento e valor adicionado, e a participação no valor bruto de produção.


Crédito imagem: FBM