Indicadores de Bioeconomia

Imprimir email

André Ricardo Costa

Doutor em Administração pela USP e professor da Ufam



Muitas inovações surgiram em momentos de crise, ocasiões em que necessidades e oportunidades se tornam mais claras. À parte produtos e processos estudados por essa origem, pouco se fala das soluções informacionais criadas para entender as causas das crises e evitar suas repetições. Compreendê-las pode nos ajudar a repetir a postura inovadora diante de crises em outros temas, como o que se quer agora para Bioeconomia.


São exemplos os sistemas de contas nacionais, onde se calcula e divulga o Produto Interno Bruto – PIB em suas várias abordagens e componentes, e as demonstrações contábeis disponibilizadas principalmente pelas empresas listadas em bolsa de valores.


Ambas as soluções se fizeram regra nos esforços para superar a crise de 1929. O atual padrão do PIB foi estabelecido por Simon Kuznets, economista russo Nobel de 1971. Em 1931 recebera do Senado norte-americano encomenda para traçar o histórico da renda nacional. No que cumpriu com sucesso, aplicou séculos de desenvolvimento dos conceitos econômicos de renda e das técnicas de coleta e análise de dados. Para as demonstrações contábeis, Charles Waldo Haskins fora o contador a reunir o que a prática contábil formulava desde a Renascença, mas somente com a criação da Securities and Exchange Commission, em 1934, deu força regulatória para estabelecer um padrão a ser seguido pelas empresas listadas.


Desde essas décadas também se discute sobre crises climáticas ou emergências ambientais. Avancemos ao nosso tempo e espaço na Amazônia. Aqui e agora tanto sofremos essas crises quanto somos apontados como solução para o mundo, e precisamos de solução para nós mesmos enquanto recebemos a encomenda por uma nova matriz econômica para além de 2073. Daí somos demandados a formular sobre Bioeconomia e produzir indicadores a respeito.


Como ocorreu com o PIB e as demonstrações contábeis, construir informações sobre Bioeconomia dependerá de prestigiar o que de melhor foi discutido até agora quanto ao modo sustentável de prover bem-estar. Há o papel dos direitos de propriedade. Há a questão das formas de produção primária. Temas ainda não discutidos o suficiente entre nós amazônidas.


No cerne, há a inovação teórica do economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen. Em 1971 ele usou o conceito da entropia, típico dos estudos físicos da termodinâmica, para apontar o caminho de avaliar a influência humana sobre a biosfera. O PIB como ainda usamos desde Kuznets, em tese, não considera o resíduo, que é a perda definitiva de energia ou abandono de material inútil à natureza. Esse resíduo, em tese, aumenta à medida em que a ação humana se distancia de suas meras funções biológicas.


Interpretando a teoria de Georgescu-Roegen até este ponto, os modelos de “PIB verde” têm proposto ajustes que, de modo geral, somente tendem a reduzir o número que seria alcançado pelo “PIB tradicional”, o de Kuznets. Isso produz o já velho problema de antagonizar os cuidados ambientais com o desenvolvimento econômico.


Para evitar esse antagonismo, as iniciativas de elevar o PIB pela produção sustentável têm sido esparsas, tornando ainda mais difícil estruturar um sistema de indicadores homogêneo e verificável. Vejo como solução acrescentar o resíduo como tudo o que ainda não é aproveitado pela economia circular. E toda atividade que maximize a relação entre valor bruto da produção diante do uso de recursos e geração de resíduos será causa de prosperidade com minimização dos impactos ambientais. Como não considerar isso um mérito de Bioeconomia?